O futuro ainda cabe em sala de aula
O país esquece, mas a sala de aula lembra: ali, o futuro ainda tem nome, rosto e cansaço. E mesmo exausta, a docência continua, porque ainda acredita.
EDUCAÇÃO


Um dia, ouvi a frase: “Eu estou professora.” E confesso que isso me causou estranheza. Nunca consegui ver o papel de professora como algo que se possa simplesmente estar, como uma roupa que a gente veste de manhã e pendura atrás da porta no fim do dia. Por outro lado, também não quero me perder no discurso romântico de quem acredita que basta o amor pra sustentar o ofício.
Ainda me pego esquecendo que, neste ano, me afastei da sala de aula. Às vezes, é no meio de uma conversa, de uma lembrança ou de um cheiro de tinta guache que percebo o quanto o corpo ainda está lá. entre o barulho das cadeiras, as vozes pequenas e o cansaço que chega antes do fim do turno. Talvez seja isso: o estar professora nunca deixou de ser um ser, mesmo quando o corpo muda de lugar.
Foi no chão da sala que aprendi a admirar o fazer docente. Não foi em congressos, nem em livros sobre metodologias inovadoras. Foi ali, entre o barulho das cadeiras arrastando, o cheiro de tinta e o peso do fim de tarde, que entendi o tamanho de quem escolhe ensinar. Talvez por isso eu questione tanto quem decide sobre a educação sem nunca ter entrado numa sala de aula. Quem define quanto vale o nosso trabalho, o que devemos ensinar, como devemos fazer, o que devemos sentir. Quem nunca precisou respirar fundo antes de acolher o que o mundo despeja nas crianças todos os dias.
Aprendi que o nome de uma professora ensina. Que o sotaque ensina. Que as manias, o timbre de voz e até o silêncio depois de um dia difícil também educam. Ensinar nunca foi só sobre o que se diz, mas sobre o que se é. A sala de aula é o espelho onde o humano se reflete por inteiro.
Mas o país parece esquecer disso. Esquece que o professor é quem sustenta a base de tudo o que chamamos de futuro e, paradoxalmente, é quem mais adoece tentando sustentá-lo. Segundo dados da Organização Internacional do Trabalho e da Unesco, o Brasil está entre os países com maior índice de exaustão docente do mundo. Uma pesquisa da Nova Escola revelou que sete em cada dez professores já pensaram em abandonar a profissão. E o Instituto Península mostrou que 66% dos educadores brasileiros relatam sintomas de burnout, especialmente nas redes públicas.
Esses números não me surpreendem. Eu já vi colegas chorando no banheiro depois de uma reunião, disfarçando o tremor nas mãos antes de entrar em sala. Já vi gente que ensinava por amor começar a ensinar por sobrevivência. E já senti, muitas vezes, o peso de carregar um país inteiro nos ombros e ainda precisar sorrir para as crianças, porque elas não têm culpa.
Ser professora é estar o tempo todo entre o que o mundo cobra e o que o coração pede. É planejar o dia e ver tudo mudar em cinco minutos. É ensinar sem ter tudo, cuidar sem ter tempo, acreditar num futuro que talvez eu nem veja florescer. É estar exposta à dor e, ainda assim, escolher o amor.
Eu sigo acreditando que há algo de profundamente humano em continuar, mesmo cansada. E, por isso, o meu desejo hoje é que o país veja o professor como quem sustenta um país inteiro. Porque é isso que fazemos, mesmo quando ninguém vê: sustentamos, cuidamos, reparamos o que o tempo e o descaso tentam quebrar.
Não quero que nos vejam como heróis. Quero que nos vejam como gente. Porque é da humanidade que nasce o verdadeiro aprendizado. E talvez seja justamente por isso que, mesmo longe da sala de aula, eu ainda me sinto professora. Porque ser professora não cabe num crachá, num contrato ou num horário fixo. É algo que continua, mesmo em tempos de luto e de luta. Continua no olhar, na escuta, na palavra que insiste em cuidar.
